O governo Lula concedeu isenção total de tributos alfandegários para a importação de 30 milhões de insumos destinados à fabricação do Ozivy, caneta emagrecedora anunciada pela EMS como primeiro medicamento "100% brasileiro" do gênero. Documentos da Câmara de Comércio Exterior (Camex) revelam que dispositivos plásticos e agulhas de aplicação entram livres de taxas e originam-se principalmente de fábricas localizadas na China.

A renúncia fiscal inicial ocorreu em agosto do ano anterior, quando a Camex eliminou a alíquota padrão de 14,4% sobre um lote de 10 milhões de aplicadores descartáveis pelo período de doze meses. Semanas depois, a EMS obteve autorização da Anvisa para comercializar os medicamentos Lirux e Olire. Em novembro seguinte, a empresa retornou ao Ministério da Fazenda solicitando ampliação do benefício: desta vez pediu isenção para 58,2 milhões de estruturas aplicadoras visando ao lançamento do Ozivy, remédio genérico à base de semaglutida. O comitê ministerial rejeitou o volume total, mas aprovou a importação sem impostos de 30 milhões de unidades.

Dados técnicos apontam que fornecedores asiáticos dominam o mercado brasileiro de seringas especializadas. A China lidera com 35,6% das remessas, seguida por Índia (24,2%) e Taiwan (13,5%). Estados Unidos e Turquia dividem o restante da oferta. A Camex recusou-se a comentar a decisão.

Em nota oficial, a EMS negou inconsistência e afirmou que o remédio possui "DNA totalmente brasileiro". Segundo a empresa, as etapas mais complexas — pesquisa, testes de qualidade, reações químicas e envase — ocorrem em parques industriais paulistas. A diretoria argumentou que a importação de insumos médicos específicos segue prática padrão da indústria global e que o Brasil carece de fabricantes de plástico de alta precisão para essa finalidade.

A aprovação governamental para isentar multinacional de tributos enquanto a mesma empresa promove seu produto como nacional levanta questões sobre critérios de benefício fiscal e transparência nas decisões da Camex.